Publicado por: sad clown | 7 Junho, 2008

aquele moço..

ele não sái mais de casa
não vai mais comprar pão
não mais assiste ao pôr do sol

ele não chora, não sorri
cala-se nas conversas
desaparece enquanto festejam

tenho medo mas nada faço
cada um tem sua necessidade
gostaria que fosses normal

um surto psicótico
talvez tudo mude
as olheiras entregam a morte que ronda

nunca o vi assim
pelos cantos, pelo mundo
cultuando a solidão

chora de vez em quando
choro ainda mais
tantas outras mãos também

agora ele foge. de todos.
corre para o nada
grita pra ninguém

destemido este que nascera por instantes
sua morte logo desperta o covarde

nada fica além da desgraça
as lágrimas, a carne, as roupas

até suas escritas aqui não mais estão
sua memória também despencou

quando pulara daquele lugar

Publicado por: sad clown | 27 Maio, 2008

Novas Memórias..

Um homem que nada teme, se mata, ainda que aos poucos.
Um homem que teme à Deus, é limitado, enrustido
Um homem que teme à si, é um covarde.

Há ainda os que temem à outrém
estes serão sempre os medrosos.

Conheço de todos os tipos.
Sou todos.

O suicida covarde e o medroso enrustido.
sou o ócio e a inspiração.

alguém que você conheceu um dia ainda que não nesta face.

sou o gênio, o louco
o imbecil que se tortura
o amargo gosto da carne podre..
a vida que não aconteceu.

sou tudo o que não gostarias
a pedra, o sapato
a ovelha e o negro
sou também a família

sou amigo, sou esperto
faço intrigas e acaricio
o amante, o Roberto
o poeta, eu gostaria

O ligeiro incômodo que todos sentem um dia
sou o engasgo da minha família
o espelho do mendigo
a admiração dos órfãos

sou o soco no estômago da felicidade
a dor que sempre abalará o mundo
sou o castigo, o castigado
sou a Porra que jamais deveria ter fecundado

Fui o santo, tornei-me monstro
o sábio, por fim burro
o coitado, o calado, o sofrido
o rebelde, o drogado, o gemido
o gritar de um mudo

o mártir que não precisaria ter nascido.

Publicado por: sad clown | 5 Maio, 2008

ativando metas, traçando planos..

Não estou tão disponível. Não mais.

Ainda que calado e sozinho, não sou solitário. Tampouco infeliz.

Os elogios que fazem à mim não lhes foram pedidos; obrigados jamais.

Minha família sou eu. Meus cães – amigos – e toda minha flora também.

O morrer foi ontem e diga-se, deste mal não sofrerei de novo. O nascer é agora. E em cada dia que acordo antes ou depois do sol.

O caos de pessimismo dá origem a sonhos perdidos. Metas inalcançadas. Carinho recluso.

Mas não confunda-me. O excesso de bondade também desaparece e fica o suficiente para que me respeites. Para o meu respeito por ti.

Publicarei meu livro de memórias ao invés de carta suicida.

Agora o acaso existe sim e o amor, ah o amor.. Este exige ser renovado sempre.

Amo tantas coisas, pessoas, lugares. Amei em demasiado outréns, alquéns, améns..

Amei pouco à mim. É a hora, não?

Nenhuma batalha é fácil mas minha estratégia está bem traçada. Falhando, por acaso, traçá-lo-ei outra. E outra e outra..

Pelo menos agora sei pelo que luto: contra mim! por mim!

Matarei meu Ego, seus ‘ísmos’ e sentimentos dispensáveis. O apego principalmente.

O semear de agora implicará no colher de amanhã. Mas antes ainda é necessário arar, adubar, regar e até mesmo podar galhos nem sempre ruins, para que novos cresçam com mais vigor.

Bru..

Publicado por: sad clown | 30 Abril, 2008

cortei a perna..

quero que impeçam-me de fazer coisas
quero ter vizinhos de verdade
que me façam ter vergonha de andar nu
quero amigos de todas sexualidades
sem que precisem excessivamente querer à mim

quero ter minha boia preparada
alguém senão eu pra conversar
acordar com carícias

mas só tenho um copo e uma garrafa
um caderno e uma caneta
um prato vazio
uma bandeja e um canudo

quero sentir-me inteligente
deixar o fumo
e viver em poucos metros quadrados que sejam meus.

quero o amanhã hoje
a morte agora
e a vida ontem.
bru..

Publicado por: sad clown | 27 Abril, 2008

inferno de um endividado..

curo a embriaguês com o sono
a depressão com coca
a abstinência com as mãos

de olhos abertos durante a noite
enxergo sonhos
ouço verbos
curo poemas

em minha cama a mais bela
finalmente.
nada faço além de deixá-la
e o sempre acontece de novo

lado a lado com a morte
assobio para a planta
podo o cão
estou em cima do muro que divide o nada

alguém acorda
a porta se abre
minhas mãos trêmulas não escondem o que fiz
a secreção muito menos

magro, sem fome
o banho seria um castigo
um ensaio de uma orquestra desafinada
tudo soa mal

e suo.
do lado de dentro desta janela sem vidro reparam-me
de longe, com suas lunetas importadas

o prédio da frente avista um suicida
a taquicardia denuncia um covarde

enlouqueço

fácil é olhar para o relógio e ver o tempo passar

servir de exemplo jamais.

meus bons amigos largo
desisto.

suas casas estão há milhas daqui
ou talvez do lado

o medo finge estar morto

quero encarar-lhe e tocar sua pele macia
eis que alguém ressuscita
era apenas o medo

nem no espelho olho-me
quem dirá levá-la à casa

oportunidade perdida
a única.
e choro, senão a última

brinquei com desconhecidos
corri de quem me aguenta

as pernas trêmulas balançam
angústia maior é ficar nu

com ou sem espelho, o que sentirei é remorço
ou pena

a lição é que falhei mais uma vez neste objetivo
mas conquistei uma ferida que jamais irá sarar.

bru..

Publicado por: sad clown | 10 Abril, 2008

o berço..

Higienizo-me na pia que mijo.

Mato a fome com os talheres de ontem.

Nada disso é mais enojante que o berço que durmo.

O mato não é maior que a barba

O lixo não cheira tão mal quanto os pés.

Semanas passaram-se e o esquecido das coisas tornara-se o esquecido do mundo; pelo mundo.

Afasta-se dos sonhos quando recorre ao consolo de sempre.

E foge; e grita; e sente PANICO.

É tudo momentâneo. (o prazer inclusive)

Amanhã fará o que fez hoje até não haver mais arrependimento… (ou dores de cabeça)

Por hora, espera o tempo passar…

Publicado por: sad clown | 28 Março, 2008

“vontade de potência..”

Sabe esses dias em que nos sentimos impotentes?
Aquele desaforo que não desceu mas que teves que levar pra casa?
Pois bem..

Eu já apanhei da polícia, já discuti com bandido e já fui espancado por uma gangue inteira.
Engoli tudo à seco.

Já me revoltei também. Quis ter uma arma, já pensei em roubar, matar e em tantas outras crueldades.

Muitos assim o fazem.

Rovoltam-se “sem ter motivo” deixando-se levar pela raiva do momento e fazem besteiras das quais se arrependerão pelo resto da vida.

Outros nunca se arrependem.

Eu, me emputeço, mas vou pra casa.
Mas por que? Por quê continuar fazendo o certo e o bom neste mundo cruel?
-Pq assim você consegue dormir à noite!

Bullshit! Todo mundo dorme à noite. Até os policiais corruptos do esquadrão da morte. Até os traficantes que torturam.

-Mas pelo menos sua consciência não o julgará.

E tu achas mesmo que a consciência de um animal como esses, que só vê a violência como meio de vida e o homicídio como demonstração máxima do seu poder, o julga?

Este não é o meu mundo, mas eu sei que muitos matam por aí sorrindo. E beijam seus filhos logo após cometer uma chacina. Cadê suas respectivas consciências nessas horas?

-E Deus, serve?

Deus, cadê Deus? O maior “misericordioso” existente não aparece nessas horas!
E onde ele está quando inocentes são assassinados? E onde ele está quando pessoas são espancadas? Cadê Deus? Cadê o teu Deus?

E onde ele estava quando quase me mataram?

-Pois é… QUASE te mataram……….

Fim

Publicado por: sad clown | 1 Março, 2008

três nove sete parador..

O cenário é uma van rumo ao centro. O calor é apenas o agravante pra aumentar a vontade de sair e beber uma cerveja com os amigos.
Saímos do subúrbio para curtir essa sexta feira na lapa.
No caminho ouço histórias:

-Irmão, vou te falar que conheço todas essas favelas aqui da brasil.
-É mermo?
-Tá ligado! Quando volto do trabalho eu posso escolher onde irei comprar o bagulho.
-Tá vendo!
-Tá ligado que aqui é Lucas né? Mas te falar, eu pego direto no amarelinho. Lá é tranq de chegar e sair e a boca fica bem ali na rua de tras.
-Podes crer, um amigo meu de irajá também tá ligado nessa boca ae e me falou q é tranquilo lá. Só lombra quando o caveirão dá rolé né?
-Te falar legal, já fui muito em acari também. Mas te falar que porra, tá ligado né? acari é osso de sair. Aquele ponto ali é foda pq é conhecido como o ponto dos viciados. Se tiver alguém ali no ponto e passar os cana, tá ligado q vai rodar e vai ser esculachado né?
-Porra irmão, te falar que porra, esses malucos ae tão de comédia né? Porra, ao invés de correr atrás de quem realmente tem q ser esculachado…
-Mas tá ligado q drogado tb não tá certo não.
-Aí é, mas não justifica encher o maluco de porrada e colocar ele pra comer o bagulho.
-Já fui muito pra baile também. Mas na época q os bailes eram tranquilos, tá ligado? São João ali era só lazer.
Te falar que já busquei também em vigário e lá é sinistro irmão. Na moral, tem muito viciado.
-Pior que em manguinhos?
-Pôôôôrrra, tá ligado né? Tá ligado que manguinhos a parada é outra. Muito viciado em crack, saca? Aquelas vielas parecem o iraque cara, é sinistro, mas tá ligado que é o melhor beck do Rio né? Manguinhos e Jacaré, mas te falar que os dois são chapa quente pra caralho pra entrar e sair.
-Mermão, não sei como os malucos vão lá nessas paradas, saca? A Boca é escondida pra caralho e aquilo lá é um barril de pólvora. Todo dia dá merda nesses lugares aí. Sou tranquilão em buscar na atlanta, tá ligado? lá eu nem preciso sair da estação.
-Te dar o papo que pôrra, no Rio tem muito viciado, maluco. Nego volta do trabalho e já está acostumado a parar nos mesmos lugares sempre. Sem contar q é perto de casa ou é no caminho pra casa. Por isso que esses lugares podem estar lombrados ou o que for, mas sempre vai ter viciado lá. Não é atoa que são as bocas mais disputadas do Rio, na moral.
-Tá vendo.

Mudando de assunto, Pedro lembra-nos que hoje é a última sexta feira de fevereiro de um ano bissexto, que por sinal, caiu em um dia 29. Tínhamos realmente que ir pra lapa.
A Lapa no rio é sinônimo de bohemia. De todas as Opções de diversão diferentes no mesmo espaço.
Só não tínhamos dinheiro.
Nestes vinte e poucos anos, a maioria sem emprego e outros com uns empregos de merda, trinta reais era a maior grana de um de nós.
Assistíamos aos carros de luxo, alguns blindados e tudo, com pessoas daquele jeito esteriotipado de sempre, roupas, cabelos, bolsas e até bebidas iguais (é, reconheço, tive inveja), circular entre nós enquanto íamos dos arcos ao beco do rato, da sinuca ao arco íris.
Já fui muito ao circo, lembrei. Sinto falta dessa pseudo-inteligência que eu julgava ter como a maioria dos frequentadores de lá ou do odisséia.
E as carangas paravam no democráticos, Lapa 40, Rio Scenarium, Fundição.
E nós no camelo chorando 1 real de desconto por comprar 3 latões de skol.

No beco do rato mais um baseado:

-Coé irmão, olha aquelas gatinha ali fumando um.
-Tá vendo, chama elas pra cá pra mafu um com a gente.
-Pow, te falar que se eu tivesse um baseado descente pra apresentar, eu chamaria agora, mas com esse fininho de cadeia aqui q não dá nem pra gente não tem condições.
-Vamos correr atrás de um beise então, tá ligado?
-Tá vendo, vê com o barba ali que ele tá ligado onde tá rolando por aqui.

Nessa hora a onda do doce já havia batido faz tempo e eu já não conseguia ficar parado.

-Um trident por favor…

-Dá uma água aí brow…

Mulher eu só esbarrava. Nem olhar conseguia.
Depois do baseado, voltamos aos arcos e ficamos ali por debaixo pra gastar um pouco a onda. Estava cheio e aquilo me angustiava.
Assisti a uma das cenas mais chocantes da minha vida. Uns três ou quatro maluquinhos com no máximo 12 anos o mais velho, cheirando cola em uma garrafinha de água vazia e pedindo comida à todos que passavam.
Comida ninguém nega e logo eles estavam com um cachorro quente em uma das mãos sem soltar a garrafa de cola.

-É cumpadi. Somos um país de merda de terceiro mundo e jamais deixaremos de ser sub-desenvolvidos – eu disse – Nego fala e acha que as coisas estão mundando quando na verdade é só maquiagem pra atrair investimentos e pra não pesar tanto a consciência da elite que insiste em acreditar que está fazendo algo de bom.
-Isso nunca mudará! Cara, olha pra esses gringos. TODOS eles estão adorando isso aqui. Em alguns países tu não pode nem mais fumar cigarro. Não pode beber na rua. Não pode beber depois de certa hora. Agora olha pra isso aqui! A maioria dos gringos vem pra cá sabendo que é assim. Doidão sempre vai ter em qualquer lugar do mundo mas lugares assim estão cada vez mais raros. Neguin sabe que no nordeste tem prostituição infantil e vai pra lá só pra isso. É de interesse da nossa elite, dos países que nos dominam e de todos que tiram proveito disso de alguma forma de sermos como somos, que isso nunca mude, e repito, Isso nunca mudará!

Depois disso a chuva caiu pra fazer-me despertar e querer ir embora pra longe de toda aquela desigualdade, que sinceramente agrada aos gringos, ricos e pobres.

Sexta, 29-02-08

Publicado por: sad clown | 29 Dezembro, 2007

sincronia..

eu não sou eu.

é verdade.

você não é você.

sempre quando quero ser eu, fracasso. sempre quando preciso ser, gaguejo.

eu sou uma mistura de emoções e experiências. não, isso também não sou eu. nós somos.

você é alguém que me vê por um outro ângulo. neste caso, eu sou alguém que lhe assiste de uma outra forma.

quem somos então?

certa vez me vi esticando um retrato dobrado em várias posições. o que ví? ví a mim de uma forma assíncrona.

então, eu sou assíncrono.

sou cada dobra de uma foto amassada.

sou o gosto amargo do sangue de um dedo recém cortado.

sou o pó. o nada.

sou egoísta a tal ponto que busco sempre um interesse. meu interesse.

sou tão amável que brigo com quem mais amo. peço perdão e ainda assim me acho o certo, quando na verdade não deveria ter errado.

eu por mim sou eu. por você sou outro; e cada um tem uma definição diferente de quem sou. quem somos…

não é fácil compreender isso. mas não impossível.

tento me desvencilhar desta imagem pré-fabricada que meu nome causa às pessoas e à mim. em vão.

saio deste corpo, ainda assim não me enxergo tão diferente quanto o reflexo do espelho que a maior parte da minha vida não me agrada.

chego ao fim da mesma forma que comecei este raciocínio: no escuro.

Publicado por: sad clown | 16 Dezembro, 2007

até parece ser a última vez que nos veremos..

minha fossa eu sujei..
sofisticado e em cima do muro
neste lugar ninguém me rebaixa
sinto o socorro dos últimos homens.

em um lugar qualquer, em minha esquina
minha casa, meu morro vazio
choro com a inocência de um bebê
e uivo como um lobo faminto.

bem-vinda, dor.
um mês, uma semana, um dia.
se todos estes anos não foram capazes de tirar-te daqui
um simples esquecido não o fará.

assim o quero; assim o seja.
o mar ainda está longe
embora eu goste de dormir ouvindo o seu rugido
amigo quieto em um bar vazio..

e não penses que me orgulho disso
em outrora já brilhou o sol
e o gemido vem lá de cima
menina quieta que me deixastes assim.

quem dirá que és o mesmo
não fosse o muco, eu não diria
e ó que assim se torna pleno.
grande o muro de um pântano vazio.

…………..

todo este sofrer, saiba
ainda que em palavras
são para tentar explicar que não há explicação para uma dor perene
e não há entendimento para meu pecado..

bjo, bru..

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