O cenário é uma van rumo ao centro. O calor é apenas o agravante pra aumentar a vontade de sair e beber uma cerveja com os amigos.
Saímos do subúrbio para curtir essa sexta feira na lapa.
No caminho ouço histórias:
-Irmão, vou te falar que conheço todas essas favelas aqui da brasil.
-É mermo?
-Tá ligado! Quando volto do trabalho eu posso escolher onde irei comprar o bagulho.
-Tá vendo!
-Tá ligado que aqui é Lucas né? Mas te falar, eu pego direto no amarelinho. Lá é tranq de chegar e sair e a boca fica bem ali na rua de tras.
-Podes crer, um amigo meu de irajá também tá ligado nessa boca ae e me falou q é tranquilo lá. Só lombra quando o caveirão dá rolé né?
-Te falar legal, já fui muito em acari também. Mas te falar que porra, tá ligado né? acari é osso de sair. Aquele ponto ali é foda pq é conhecido como o ponto dos viciados. Se tiver alguém ali no ponto e passar os cana, tá ligado q vai rodar e vai ser esculachado né?
-Porra irmão, te falar que porra, esses malucos ae tão de comédia né? Porra, ao invés de correr atrás de quem realmente tem q ser esculachado…
-Mas tá ligado q drogado tb não tá certo não.
-Aí é, mas não justifica encher o maluco de porrada e colocar ele pra comer o bagulho.
-Já fui muito pra baile também. Mas na época q os bailes eram tranquilos, tá ligado? São João ali era só lazer.
Te falar que já busquei também em vigário e lá é sinistro irmão. Na moral, tem muito viciado.
-Pior que em manguinhos?
-Pôôôôrrra, tá ligado né? Tá ligado que manguinhos a parada é outra. Muito viciado em crack, saca? Aquelas vielas parecem o iraque cara, é sinistro, mas tá ligado que é o melhor beck do Rio né? Manguinhos e Jacaré, mas te falar que os dois são chapa quente pra caralho pra entrar e sair.
-Mermão, não sei como os malucos vão lá nessas paradas, saca? A Boca é escondida pra caralho e aquilo lá é um barril de pólvora. Todo dia dá merda nesses lugares aí. Sou tranquilão em buscar na atlanta, tá ligado? lá eu nem preciso sair da estação.
-Te dar o papo que pôrra, no Rio tem muito viciado, maluco. Nego volta do trabalho e já está acostumado a parar nos mesmos lugares sempre. Sem contar q é perto de casa ou é no caminho pra casa. Por isso que esses lugares podem estar lombrados ou o que for, mas sempre vai ter viciado lá. Não é atoa que são as bocas mais disputadas do Rio, na moral.
-Tá vendo.
Mudando de assunto, Pedro lembra-nos que hoje é a última sexta feira de fevereiro de um ano bissexto, que por sinal, caiu em um dia 29. Tínhamos realmente que ir pra lapa.
A Lapa no rio é sinônimo de bohemia. De todas as Opções de diversão diferentes no mesmo espaço.
Só não tínhamos dinheiro.
Nestes vinte e poucos anos, a maioria sem emprego e outros com uns empregos de merda, trinta reais era a maior grana de um de nós.
Assistíamos aos carros de luxo, alguns blindados e tudo, com pessoas daquele jeito esteriotipado de sempre, roupas, cabelos, bolsas e até bebidas iguais (é, reconheço, tive inveja), circular entre nós enquanto íamos dos arcos ao beco do rato, da sinuca ao arco íris.
Já fui muito ao circo, lembrei. Sinto falta dessa pseudo-inteligência que eu julgava ter como a maioria dos frequentadores de lá ou do odisséia.
E as carangas paravam no democráticos, Lapa 40, Rio Scenarium, Fundição.
E nós no camelo chorando 1 real de desconto por comprar 3 latões de skol.
No beco do rato mais um baseado:
-Coé irmão, olha aquelas gatinha ali fumando um.
-Tá vendo, chama elas pra cá pra mafu um com a gente.
-Pow, te falar que se eu tivesse um baseado descente pra apresentar, eu chamaria agora, mas com esse fininho de cadeia aqui q não dá nem pra gente não tem condições.
-Vamos correr atrás de um beise então, tá ligado?
-Tá vendo, vê com o barba ali que ele tá ligado onde tá rolando por aqui.
Nessa hora a onda do doce já havia batido faz tempo e eu já não conseguia ficar parado.
-Um trident por favor…
-Dá uma água aí brow…
Mulher eu só esbarrava. Nem olhar conseguia.
Depois do baseado, voltamos aos arcos e ficamos ali por debaixo pra gastar um pouco a onda. Estava cheio e aquilo me angustiava.
Assisti a uma das cenas mais chocantes da minha vida. Uns três ou quatro maluquinhos com no máximo 12 anos o mais velho, cheirando cola em uma garrafinha de água vazia e pedindo comida à todos que passavam.
Comida ninguém nega e logo eles estavam com um cachorro quente em uma das mãos sem soltar a garrafa de cola.
-É cumpadi. Somos um país de merda de terceiro mundo e jamais deixaremos de ser sub-desenvolvidos – eu disse – Nego fala e acha que as coisas estão mundando quando na verdade é só maquiagem pra atrair investimentos e pra não pesar tanto a consciência da elite que insiste em acreditar que está fazendo algo de bom.
-Isso nunca mudará! Cara, olha pra esses gringos. TODOS eles estão adorando isso aqui. Em alguns países tu não pode nem mais fumar cigarro. Não pode beber na rua. Não pode beber depois de certa hora. Agora olha pra isso aqui! A maioria dos gringos vem pra cá sabendo que é assim. Doidão sempre vai ter em qualquer lugar do mundo mas lugares assim estão cada vez mais raros. Neguin sabe que no nordeste tem prostituição infantil e vai pra lá só pra isso. É de interesse da nossa elite, dos países que nos dominam e de todos que tiram proveito disso de alguma forma de sermos como somos, que isso nunca mude, e repito, Isso nunca mudará!
Depois disso a chuva caiu pra fazer-me despertar e querer ir embora pra longe de toda aquela desigualdade, que sinceramente agrada aos gringos, ricos e pobres.
Sexta, 29-02-08